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1999 - Sesc Pompéia - SP




















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O BRILHANTE SENTIMENTO

A pintura de Gilberto Salvador é organizada por um vigoroso sentimento. Ele é capaz de tingir as suas telas das mais variadas iluminações, recortá-las fisicamente em setores e, ao mesmo tempo, não perder a integridade do conjunto. A vida não é redutível à linguagem. A vida é maior do que a arte. E a arte não é redutível à outro tipo de código , como o verbal. Mas a vida pode ser assinalada, analisada, simbolizada, como faz o artista Gilberto Salvador.

A arte de Salvador procura esta discussão, pois opõem permanentemente os contrários, as ligações e relações do real, o dialogo entre o orgânico e o inorgânico, o ser e a coisa, a curva e a reta, o racional e o irracional, a intuição e a lógica cartesiana, o impulso e a reflexão. A sua arte é o pensamento sobre as possibilidades vitais e as da linguagem e o alcance do símbolo.

É a irredutibilidade da vida à linguagem o estímulo do artista e a sua permanente insatisfação. Trabalhar com o precário, fortalecer-se com ele e estar consciente da fragilidade dos instrumentos humanos. A linha da melódica, a sensibilidade do som e do espaço, a atração da luz, a organização dos signos e uma discreta intimidade com a intuição cósmica, são os sinais nesta cartografia. Despudorada poesia do artista Gilberto Salvador.

O vôo da liberdade na luminosidade das asas do pássaro.

Azuis profundos. Vermelho sangue. Púrpura. Espaço enriquecido do desenho gestual.

As mudanças de ponto de vista, o alvo e o tiro. Alça de mira.

Confronto e encontro.

A força do animal nesta obra lembra as descrições xamânicas do encontro com o animal de força.

Pintura, gravura, escultura, objetos, meios de substanciar o rico acervo da anima.

Perceber, e perceber sempre, na obra deste artista, é um doloroso exercício de ser. É inegável que este trabalho tem qualquer coisa de profético, pois quer alertar e modificar o mundo. Não há literalidade na obra do artista, pois não é um discurso sobre o método, mas o dialogo entre as partes.

A pintura lidera as várias técnicas onde o artista incurciona e é notável a alegria que emana dela. Grandes manchas, recorte do suporte, texturas, tintas usadas como matéria, experiências com materiais de uso industrial, desenho gestual, brincadeiras visuais, experiências com o tempo cinematográfico na bidimensionalidade.

Pintura de água.

É raro um artista tão visceralmente ligado ao seu processo produtivo. Não apenas cada trabalho seu é uma luta corporal, como envolve o conjunto de suas atividades psíquicas, emocionais e espirituais. Desta maneira, o principal enfrentamento do artista é consigo mesmo e ele está sempre num combate perigoso e mortal. A lâmina sobre a cabeça. A cada momento Gilberto Salvador está inteiramente vinculado à sua criação e se constitui num sistema único entre a vontade, o gesto e o nascimento do objeto. Esta articulação entre o artista e o projeto, inventa um procedimento e estabelece um método único no qual ele é reconhecível e do qual é indissociável. Neste caso, o método é o homem.

Esta extraordinária série de aquarelas é exemplar da maneira peculiar como o artista desenvolve o seu tema e é, igualmente, motivação para refletir sobre as técnicas na arte. A aquarela tornou-se, em boa parte, uma expressão servil, repetitiva, de temas e assuntos banais e superficiais. Os conteúdos inovadores, ligados aos contrastes simultâneos de cores, que contribuíram para o surgimento do Impressionismo, desapareceram. A característica única de meditação do artista, o seu encontro consigo mesmo, instrumentalizada pelo gesto intuído, sem retorno e correção, parece substituída pelo maneirismo. Esta mostra de Gilberto Salvador contribui para trazer a aquarela para o especifico terreno da arte.

A massa foi totalmente impregnada de água. O papel que a compõe é único, produzido a partir de varias plantas brasileiras, resultado de uma contínua pesquisa nacional destinada a criar materiais de alta qualidade. Essa massa saturada é indomável e está sobre o império da água, símbolo das forças inconscientes e leito do nascimento da vida. O artista torna estes volumes cromáticos com a aplicação de tintas, chá e café, bastante diluídos. A invenção do suporte.

É sobre essa massa cromática que, posteriormente, Gilberto Salvador vai elaborar, dar as respostas às sugestões descobertas, responder ao grafismo sugerido, retirar de sua imensa gama de informações e experiências estéticas, os elementos capazes de interagir com a matéria já quase seca. A sua aquarela se realiza em três momentos sucessivos: a saturação aquosa do papel; a sua impregnação de cor; a ação final, com a estruturação da forma.

A pintura de Gilberto Salvador se organiza a partir de polarizações, orgânico/inorgânico, racional/irracional, lógica/intuição, impulso/reflexão. A reta e a curva, a linha continua e a linha interrompida. Nestas aquarelas, acentua-se a tendência do artista de trabalhar com lembranças afetivas e visuais e de inserir sutis situações, Vincent Van Gogh, Sanson Flexor, Tomie Ohtake, Aldemir Martins. E, de maneira vertiginosa, nos seus espaços pictóricos que parecem infinitos, através do rigor formal, entre pedaços da natureza e do ser humano, o artista encontra a síntese de algumas presenças permanentes, que expressam a luz, a sombra, a morte, o nascimento. Memórias. Homenagens. Símbolos.











1998-2005
GILBERTO SALVADOR










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