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"É raro um artista tão visceralmente ligado ao seu processo produtivo. Não apenas cada trabalho seu é uma luta corporal, como envolve o conjunto de suas atividades psíquicas, emocionais e espirituais. Desta maneira, o principal enfrentamento do artista é consigo mesmo e ele está sempre num combate perigoso e mortal. A lâmina sobre a cabeça.
A cada momento, Gilberto Salvador está inteiramente vinculado á sua criação e se constitui num sistema único entre a vontade, o gesto e o nascimento do objeto. Esta articulação entre o artista e o projeto inventa um procedimento e estabelece um método único no qual ele é reconhecível e do qual é indissociável. Neste caso, o método é o homem.
Esta extraordinária série de aquarelas é exemplar é exemplar da maneira peculiar como o artista desenvolve o seu tema e é, igualmente, motivação para refletir sobre as técnicas na arte.
A aquarela tornou-se, em boa parte, uma expressão servil, repetitiva, de temas e assuntos banais e superficiais.
Os conteúdos inovadores, ligados aos contrastes simultâneos de cores, que contribuíram para o surgimento do impressionismo, desapareceram. A característica única de meditação do artista, o seu encontro consigo mesmo, instrumentalizada pelo gesto intuído, sem retorno e correção, parece substituída pelo maneirismo. Esta mostra de Gilberto Salvador contribui para trazer a aquarela para o específico terreno da arte.
A mostra foi totalmente impregnada de água.
O papel que a compõe é único, produzido a partir de várias plantas brasileiras, resultado de uma contínua pesquisa nacional destinada a criar materiais de alta qualidade.
Essa massa saturada é indomável e está sob o império da água, símbolo das forças inconscientes e leito do nascimento da vida. O artista torna estes volumes cromáticos com a aplicação de tintas, chá e café, bastante diluídos.
A invenção suporte.
É sobre essa massa cromática que, posteriormente, Gilberto Salvador vai elaborar, dar repostas ás sugestões descobertas, responder ao grafismo sugerido, retirar da sua imensa gama de informações e experiências estéticas, os elementos capazes de interagir com a matéria já quase seca. A sua aquarela se realiza em três momentos sucessivos: a saturação aquosa do papel; a sua impregnação de cor; a ação final, com a estruturação da forma.
A pintura de Gilberto Salvador se organiza a partir de polarizações, orgânicas / inorgânico, racional / irracional, lógica / intuição, impulso / reflexão. A reta e a curva, a linha contínua e a linha interrompida. Nestas aquarelas, acentua-se a tendência do artista de trabalhar com lembranças afetivas e visuais e de inserir suas citações, Vincent Van Gogh, Sanson Flexor, Tomie Othake, Aldemir Martins. E, de maneira vertiginosa, nos seus espaços pictóricos que parecem infinitos, através do rigor formal, entre pedaços da natureza e do ser humano, o artista encontra a síntese de algumas presenças permanentes, que expressam a luz, a sombra, a morte, o nascimento. Memórias. Homenagens. Símbolos."
Jacob Klintowitz
setembro/1998
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