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1986
IMPULSOS
série branca
PINTURAS
exposição realizada na
Dan Galeria
São Paulo - SP

"3 MOVIMENTO ALLEGRO" 80 X 80 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"WITH YOU ON..." 80 X 80 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"WITH ANNA, FOR SATURDAY" 100 X 100 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"VÔO PROFANO" 160 X 130 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"TRÊS PONTOS PARA UM BRILHO" 100 X 100 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"TARDE DE ESPERA ALUCINADA" 80 X 120 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"SOPRO DE UM SONHO 90 X 70 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"SOM DE UM VENTO" 100 X 100 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"SENSAÇÃO DA AÇÃO DO AMOR" 100 X 100 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"RUPTURA DE UM PLANO AMOROSO" 90 X 70 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA

"REMINISCÊNCIA DE UMA COR PRATEADA" 80 X 80 CM TÊMPERA VINÍLICA E ACRÍLICO S/ TELA
texto
Jacob Klintowitz
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"Existe um novo e brilhante sentimento emergindo na pintura de Gilberto Salvador. Certamente
é alguma coisa de muito vigoroso, pois ele é capaz de atingir as suas telas dos mais variados
rasgões visuais, realizar interferências e, ao mesmo tempo, ser imprescindível ao conjunto.
Não conseguimos imaginar hipotéticamente estas pinturas sem estas interferências cromáticas
decididas e diretas.
Até há muito pouco tempo seria heresia falar no sentimento expresso na pintura de um artista. Justamente
vivíamos o período em que a arte parecia feita por não -humanos através de uma programação computadorizada.
E neste período de extrema rigidez, ao falarmos na obra deste artista, forçosamente deveríamos falar na
sua emoção. Gilberto Salvador não havia cedido á voga e o seu trabalho não se resumia á uma proposta
conceitual e não vinha acompanhada de qualquer bula. Para compreender o seu trabalho era fundamental
olhar para as pinturas. Não havia documento auxiliar fornecendo as chaves, os pontos de compreensão,
os códigos especiais e quais as revoltas que ela significava. Ou seja, a sua revolta não vinha acompanhada
de um grande aparato promocional de apoio.
A pintura de Gilberto Salvador foi sempre à conclusão de um confronto que acompanha o artista. De um lado,
o impulso e o registro da natureza. De outro, a reflexão sociológica e estética em torno do mundo em que vive e
das funções de sua atividade. A junção destes elementos, muitas vezes entendida como orgânico e inorgânico,
formava a um todo dinâmico onde, por vezes, o público poderia perder-se em contemplação. O que é certo é que
esta pintura não se oferecia para uma leitura superficial e, mais do que isto, ela exigia do público uma definição
e uma postura em relação à arte e à própria vida. Uma grande pretensão do artista. Mas, se os artistas não forem
pretensiosos e se as suas propostas não forem as mais elevadas, por que, afinal de contas, fazer arte?
Este confronto básico, este diálogo entre duas partes, não desapareceu da obra do artista. E nem haveria
possibilidade de um súbito desenvolvimento, uma vez que o conflito entre o natural e o conceitual, entre o
pensamento e o sentimento, entre a harmonia e a competição, são partes integrantes da nossa época. Não há
como alienar-se de algumas realidades essenciais. É claro que esta sorte de conflitos não se coloca de maneira
literal ou verbal numa pintura. Trata-se de pintura e não de um discurso em torno do método.
Mas há um novo sentimento na pintura de Gilberto Salvador e ele pode ser identificado a partir de alguns dados
concretos. E estes dados ligam-se em sua totalidade aos aspectos sensuais da arte pictórica. Desta maneira, podemos
encontrar o uso e abuso de tintas. O pintor, como uma criança em liberdade, sente prazer na experimentação de
tintas, no uso abusivo de alguns tons, na textura, na colocação de grandes manchas e na utilização de tintas
de qualidade e até mesmo de funções convencionais diferentes. Gilberto Salvador, certamente um dos artistas de
sua geração mais consciente do ofício da arte, desta vez mergulha fisicamente nas tintas, deixa que elas extravasem
e se tornem no próprio barco que navega aventura pessoal.
A autonomia das tintas, o seu arranjo formal feito a partir de sua realidade matérica, a alegria destas
grandes manchas, as brincadeiras que o artista sugere, as variações de tons e as interferências de uma cor em
outra cor de maneira brusca, tudo evidencia a alegria do pintor e gozo físico no trato dos materiais da pintura.
Além deste caminho autônomo para os materiais, Gilberto Salvador diverte-se na alteração de algumas funções
convencionais. O que explica a utilização de tintas brilhantes de uso mias tradicional em outras áreas que no
a pintura.
Também os ícones do artista sofrem modificações. O seu desenho não é estático e ele transfere para o fundo da
pintura, para a superfície que receberá o motivo central, as imagens que habitualmente, se constituíam no próprio
motivo de sua obra. Encontramos os seus grandes vôos, as asas abertas no céu, o movimento do corpo, servindo de
paisagem sobre a qual se desenham outras cenas. Desta vez o personagem é a própria cor e o movimento anímico do artista.
Mas é preciso notar que estas imagens tradicionais, na história iconográfica do artista, não desaparecem como
interesse pois, ao fundo e desligadas do centro da obra, elas destacam-se como presenças permanentes, como alertas
e sinalização da vida orgânica. Também nisto, o artista brinca com seu público ele esconde as imagens, ele as torna
sutis, ele as retira do centro visual da pintura e elas, inconformadas, se tornam mais presentes. Como se o artista
nos perguntasse onde está verdadeiramente o motivo da pintura. Há um enorme prazer nesta elaboração. O artista
percorre as várias possibilidades de sua arte e nos oferece, primeiro uma ambigüidade entre a forma e o fundo.
Ás vezes, o fundo nos parece mais importante. Por outro lado, é óbvio que ele deslocou o motivo central de sua
iconografia para um espaço mais modesto. Este diálogo surdo entre formas, este fascinante ir e vir de fundo e
forma se constitui em primeiro ponto de atenção. O foco desloca-se para um acontecimento que se passa diante de
nossos olhos. O que será o fundo ou o que será a forma? Integração na qual os nossos olhos fixam-se e o olhar
desliza entre variáveis.
A pintura altera-se conforme a incidência dos raios luminosos. A utilização de cores brilhantes em conjunto com
tintas tradicionais coloca esta pintura num campo de ambivalência. A luz do ambiente brinca nestas telas e o público
não está apenas no ambiente sacro de apreciação de arte, mas confundem-se com os cenários de prazer da nossa época
cujo arsenal principal, além do som, é exatamente a psicodelização da cor. Gilberto Salvador, matreiramente, dentro
de seu trabalho, incorpora o ambiente á apreciação, inventando uma gestalt particular. E nisto repete a atitude de
muitos dos principais artistas deste século que recusaram, em vários momentos, a possibilidade de voltar a valorizar
artificialmente a pintura através de uma sacralização do ambiente.
O gesto tornou-se mais rápido e decidido. Ele Não apenas interfere no processo da pintura, mas se torna em seu
motivo. A visão do artista passa pelo momento de sua ação física. Como se o gesto se torna-se incontido. Um cavalo
que toma nos dentes os freios e faz a sua própria corrida pelos campos. É evidente que isto é uma metáfora da liberdade.
O artista se impede de ter cuidados. Ele é livre para ousar e conquistar o seu espaço pictórico. Entre ele e a
tela estabelece-se uma relação que não admite nada mais do que o momento. Alguma coisa se move dentro do artista
em direção a si mesmo e este diálogo se passa entre o homem que faz o gesto e o gesto que quer ser feito.
Pois este diálogo, na verdade, não tem qualquer outro interlocutor fora o artista e a sua arte. O pintor
e a pintura. O gesto e a mão que faz o gesto.
Emerge desta pintura o prazer do artista em ser apenas pintor. Nada de teorias, nada de meditação ou contenção.
A meditação ocorre na medida em que a pintura é em si mesmo um universo completo, contendo as formas de reflexão e
de registro e invenção do mundo. É esta invenção que toma o seu destino e não permite prévias intervenções. Aqui,
neste lugar, neste momento, o desejo é de expressar a glória de estar vivo. Neste momento a arte é inteiramente
lúdica e o artista encontra o estado pessoal onde as coisas fluem e se organizam em plena sabedoria, pois não há
outras interferências e nem aprioris. Tudo se organiza numa nova relação e este ajustamento é simples e claro, pois
é a ordem natural das coisas. A simples alegria da vida."
Jacob Klintowitz
(dezembro/1986)
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GILBERTO SALVADOR
PINTURAS
exposição realizada na
Galeria Artenossa
Londrina - PR

"A RODA DA FORTUNA" - 1994
acrílico s/ tela 0,80m X 1,20m

"VIVACE ANDANTE" - 1996
acrílico s/ tela 1,00m X 1,00m
texto
Jacob Klintowitz
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"A arte de Gilberto Salvador é feita de oposições. É diálogo entre elementos
aparentemente opostos e irreconciliáveis que confere ao seu trabalho a permanente
sensação de expectativa e emoção. Neste caso, a pintura é feita a partir da tênue
ligação entre situações contraditórias compatibilizadas num equilíbrio virtual.
Flores perversas e líricas, flores do coração, e o rigor da linha reta, o traçado
de pontos e linhas planejadas e marcadas no espaço
Neste universo de oposições do artista, evidenciemos a oposição entre o orgânico
e o inorgânico. Flores e animais, homens e formas vivas, relacionadas com o traçado rígido, determinado, imposto e imutável. O que se transforma, o movimento, o modificável, diante do perene e morto.
A alma e a pedra, o corpo e a pedra.
Depois, há a oposição entre o gesto e o planejado. No ato do fazer artístico, Gilberto Salvador incorpora
e dá expressão ao seu processo mental e criador.
..."E há a oposição das linhas. Contra o enquadramento do suporte, o quadrado ou o retângulo, há a linha caligráfica.
Em relação às linhas retas e estabelecidas, o traço orgânico e caligráfico. A mão se opondo ao racional. O fluxo do
sangue e o cérebro."
Gilberto Salvador faz, á sua maneira, o registro e a narração de uma possível história natural da espécie
humana. O homem diante de seu destino e de suas reis possibilidades de ser. O artista deixa claro que esta
história natural não terminou. Nós continuamos diante de opções. Resta decidir entre a flor e o inorgânico,
coração e cérebro, entre a alma e a pedra."
Jacob Klintowitz
Novembro / 1985
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